
Instalações da Total em Yamal, na Russia: um dos maiores e mais complexos terminais de LGN do mundo. Foto: Divulgação / Total
A indústria de gás européia se rearranja buscando evitar a vulnerabilidade do gás russo no abastecimento do continente.
A indústria de gás européia
O gás natural é um insumo energético fundamental para o continente europeu. Para atender sua alta demanda por gás natural, os países europeus dependem fundamentalmente da produção russa e dos gasodutos que ligam seus mercados de consumo ao país do Leste Europeu. Isso significa que a Rússia e suas empresas estatais têm em suas mãos o controle do fornecimento de gás natural para grande parte da Europa. É por isso que, progressivamente, as majors europeias, como a BP e a Total, têm adotado estratégia de expansão das suas indústria de gás natural, seja em termos de produção, como de infraestrutura logística.
O mais recente relatório estatístico da BP (Statistics Review 2019) mostra que a Europa tem uma elevada dependência do gás russo, uma vez que quase 40% das suas importações, em 2019, foram oriundas do país do Leste Europeu. Boa parte desse gás é controlado por suas estatais, como a Gazprom. Além disso, cabe destacar que mais de 80% do gás natural foi fornecido à Europa por intermédio de gasodutos, o que também diminui a flexibilidade do fornecimento do produto.
Esses dados apontam que o continente europeu tem uma elevada vulnerabilidade tanto para adquirir, como para transportar o gás natural que é consumido internamente. Uma redução das exportações das estatais russas ou um corte de fornecimento dos gasodutos podem ameaçar seriamente os países europeus.
Todavia, esse cenário não é exatamente o mesmo em todas as regiões. Alguns países apresentam maior dependência do gás natural russo e fornecimento por meio de gasodutos, enquanto outros países têm maior diversificação no acesso ao gás natural.
Em 2019, na Alemanha, 100% das suas importações foram realizadas por gasodutos, das quais 51% originadas da Rússia. No Reino Unido e na França, respectivamente 65% e 62% das importações ocorreram por intermédio de gasodutos e apenas 15% e 24% vieram da Rússia. Tais informações sugerem que nos dois últimos países há uma estratégia para reduzir a dependência do gás russo, bem como para diminuir a obtenção do produto através dos gasodutos.
BP e Total na reorganização
Um elemento crucial para entender as diretrizes de tal estratégia é a forma de atuação das suas empresas petrolíferas no segmento de gás natural, como é o caso da BP (inglesa) e a Total (francesa). De forma geral, ambas empresas têm acelerado a produção de gás natural, bem como os investimentos em terminais de liquefação de gás natural (LGN), o que permite a exportação do gás na forma líquida evitando a necessidade do uso de gasodutos.
A BP apresentou um crescimento de 17% da produção de gás natural de 2017 a 2019, cuja origem tem sido cada vez mais diversificada. Embora os Estados Unidos e Trinidad e Tobago tenham se consolidado como os dois principais produtores de gás natural da BP, nos últimos três anos, é notável a ascensão de Oman e do Azerbaijão como duas novas fronteiras produtoras importantes. Em 2017, os dois países produziam 311 milhões de pés cúbicos diarios de gás natural, cerca 4% da produção da empresa. Em 2019, essa produção já havia se aproximado da faixa de 1 bilhão de pés cúbicos por dia, respondendo por 11% do total.
No Azerbaijão, a BP explora duas áreas, Azeri-Chirag-Gunashli (ACG) (BP 30,37%) e Shah Deniz (BP 28,83%) e detém igualmente uma série de outros contratos de locação de exploração. Em abril de 2019, a petrolífera decidiu elevar seus investimentos no projeto Azeri Central East (ACE), no valor de US$ 6 bilhões para a instalação de uma nova plataforma offshore. A exploração de gás natural no Azerbaijão tem o objetivo de atender ao mercado europeu por meio de gasodutos dos quais a própria BP é sócia-controladora.
Além da diversificação na produção, a companhia britânica já instalou terminais de LGN em diferentes países. Os quatro terminais da BP estão localizados em Trinidad e Tobago, Angola, Austrália e Indonésia. Cabe destacar que os dois primeiros países foram responsáveis por quase 25% da produção de gás natural da BP em 2019. Ou seja, cerca de um quarto da produção já é fornecido para a Europa por meio dos terminais de LGN.
Ademais, a empresa tem realizado novos investimentos nesse segmento. No final de 2018, anunciou o desenvolvimento do projeto Greater Tortue Ahmeyim, localizado na costa da Mauritânia e Senegal, apontado como o mais profundo desenvolvimento de gás natural liquefeito da África. Quando estiver finalizado, o terminal contará com um navio flutuante avançado, para exportar o gás natural do campo de Tortue, com estimados 15 trilhões de pés cúbicos de recursos recuperáveis de gás natural.
A Total também viu sua produção crescer significamente de 2017 a 2019 (10,5%). No entanto, diferente do caso da BP, a petrolífera tem elevado sua produção na própria Rússia que, ao longo desse periodo, aumentou de 1,3 bilhão para 2,2 bilhões de pés cubicos diários (uma elevação de 65%). A estratégia da Total foi aumentar seu controle das reservas de gás natural russo principalmente quando comprou a maior operadora privada daquele páis, a Novatek, em 2011.
Após a aquisição da empresa russa, a Total lançou no final de 2013, em parceria com a chinesa CNPC, o projeto “Yamal LNG”, um dos maiores e mais complexos terminais de LGN do mundo. Sua construção visa transportar os imensos recursos de gás em terra da Península de Yamal, na Rússia, cujas reservas seriam superiores a 22 trilhões de pés cúbicos.
Embora o foco dos investimentos da Total em gás natural seja a Rússia, a petrolífera francesa tem construído outros terminais em diferentes localidades. Em maio de 2019, a Total fechou por 6,7 libras esterlinas a adquisição de uma participação no terminal de LGN em Moçambique, onde a empresa busca exportar parte da sua produção de 923 milhões de pés cubicos de gás natural. Depois da Rússia, a África é a área mais promissora na exploração de gás natural da Total.
Segundo o diretor de investigação da Woodmac, Nicholas Browne, a empresa se tornou o quarto maior vendedor de LGN, depois da Qatargas, Shell e Petronas.
Sem dúvida, BP e Total têm suportado seus países a reduzir sua vulnerabilidade frente as empresas russas detentoras das gigantescas reservas de gás daquele país. A BP tem diversificado sua produção em direção à Ásia, enquanto a Total realizou uma inserção agressiva no mercado russo, detendo o controle de um volume significativo das reservas daquele país.
As duas empresas aportaram expressivos recursos na construção, expansão e/ou compra de terminais de LGN em diferentes localidades do mundo, principalmente na África e na Ásia, onde o gás natural pode ser exportado para a Europa a um custo mais baixo.
A despeito dessas assimetrias entre as estratégias empresarias da petrolífera britânica e francesa, não restam dúvidas de que elas fazem parte de um objetivo maior da política energética de seus países: ampliar a segurança no acesso e no abastecimento de gás natural.
Rodrigo Leão é coordenador-técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), pesquisador visitante do Núcleo de Estudos Conjunturais da UFBA e doutorando em Economia Política Internacional pela UFRJ.
Artigo publicado originalmente na Broadcast Energia.



