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A Shell utiliza a Raízen como seu grande alicerce para verticalização de sua atuação no Brasil
Publicado em: 14/06/2022No último mês, a notícia da venda dos negócios de lubrificantes da Shell para sua subsidiária Raízen chamou a atenção no mercado de energia. Esse movimento parece ser mais um sinal de que a Shell está utilizando o seu “braço brasileiro” de distribuição de combustíveis para ampliar sua diversificação na indústria de óleo e gás, bem como de energia limpa.
Nos últimos anos, a Raízen expandiu rapidamente seus segmentos de atuação, trazendo para seu core business novos segmentos de produção de energia e não apenas de distribuição. A empresa, inclusive, já foi ventilada como uma das possíveis interessadas nas refinarias vendidas pela Petrobras, o que permitiria à Shell verticalizar integralmente suas operações de petróleo no Brasil.

Centro Administrativo Raízen (CAR) em Piracicaba. Foto: Raphael Figueira / Wikimedia Commons.
A companhia brasileira foi fundada em 2011 a partir da joint venture entre Shell e Cosan, formando o Grupo Raízen. A estratégia da junção foi formar uma parceria para explorar ainda mais os negócios de açúcar, etanol e cogeração de energia, além de avançar no mercado de distribuição de combustíveis.
A partir 2012, a Raízen tem realizado um processo de expansão no Brasil que envolveram inúmeros negócios na área de abastecimento. A empresa adquiriu ativos em distribuição nas regiões sul e norte, além de terminais de combustíveis em diferentes regiões do país. Todavia, a partir de 2017, a empresa inseriu na sua estratégia não apenas a expansão dos negócios existente, como também ampliar sua diversificação setorial, principalmente nos segmentos de energia limpa.
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Naquele ano, a empresa inaugurou sua primeira planta de energia solar, em Piracicaba (SP), com capacidade de energia de 1.3 MWp. Já em 2020, junto com a Femsa, empresa líder na indústria de bebidas, formou uma joint venture chamada “Grupo Nós” que inaugurou a primeira planta de biogás da companhia. Essa unidade foi construída com uma capacidade instalada de 21 MW, viabilizando a geração de energia elétrica a partir de subprodutos da cana de açúcar.
No ano seguinte, ocorreu a formação de outra joint venture, agora com o Grupo Gera, denominada JV Raízen-Gera. Esta nova companhia surgiu com o objetivo e reforçar a transição energética e a descarbonização dentro da companhia, bem como de aumentar as ofertas em energia limpa, renovável e sustentável.
A partir dessa nova empresa, “a Raízen se consolidou como player de destaque no mercado nacional de geração distribuída e acelera sua estratégia de crescimento em renováveis, agregando novas soluções, desde Centrais de Geração Hidrelétricas (CGHs) a Biogás a partir de resíduos urbanos”, afirmou a Raízen, quando lançou o empreendimento. O objetivo era aumentar a capacidade de geração de energia para 350 MW, além de desejar alcançar 19 estados.
Ainda em 2021, a empresa adquiriu a Biosev, uma das empresas líderes do setor socroenergético. A finalização da integração da Biosev ocorreu em 2022 visando alavancar os negócios biocombustíveis, envolvendo não apenas a distribuição, mas também a produção desses combustíveis em biorrefinarias.
“A combinação com os ativos da Biosev foi um movimento estratégico para a Raízen, que conseguiu promover eficiência e sinergias operacionais, potencializando oportunidades nas biorrefinarias com tecnologia avançada e em linha com demandas ESG do mercado. O grande desafio para a companhia foi incorporar (…) a operação das nove usinas da Biosev, sendo cinco no Estado de São Paulo, três no Mato Grosso do Sul e uma em Minas Gerais. Juntas, as novas unidades possuem cogeração de energia e capacidade de exportação de 1.316 GWh de energia elétrica. Com a chegada delas, a Raízen passou a contar com 35 parques de bioenergia, que totalizam uma capacidade total instalada de até 105 milhões de toneladas de cana em cerca de 1.3 milhão de hectares de área cultivada”, garantiu a Raízen no comunicado de finalização da operação.
O plano de crescimento por meio de joint-ventures teve como premissa o investimento contínuo em projetos, tecnologias e serviços direcionados à produção de biocombustíveis, bioeletricidade e bioprodutos. A aposta da companhia para o futuro são o etanol de segunda geração (E2G) e o biogás, que tiveram suas primeiras plantas inauguradas em 2015 e 2020, respectivamente, como mencionado anteriormente.
Todavia, além da produção de biocombustíveis e de energia limpa, a empresa dá sinais que quer seguir o mesmo caminho para o segmento de petróleo. Em 2020, a Raízen surgiu como uma das interessadas na compra da Refinaria Presidente Getúlio Vargas, instalada no Paraná, de propriedade da Petrobras. A estatal adiou a venda, o que não significou o desinteresse da companhia no segmento. Pelo contrário, há notícias destacando um possível interesse da empresa sobre outras refinarias da Petrobras, como a Regap em Minas Gerais e a Rnest no Recife.
Além do interesse no refino, a Raízen já adquiriu de uma de suas proprietárias, a Shell, um parque produtivo de lubrificantes no Rio de Janeiro. Dentre os ativos adquiridos, pode-se citar “a fábrica de lubrificantes na Ilha do Governador (RJ), com capacidade de produção anual de 280 mil metros cúbicos de lubrificantes; o terminal de óleos básicos em Campos Elíseos, em Duque de Caxias (RJ); a divisão de lubrificantes marítimos Shell Marine; e, os negócios de oferta e distribuição de lubrificantes Shell no país”, informou a empresa.
Esses fatos sinalizam que a Raízen não está simplesmente diversificando seus ativos para se transformar num grande conglomerado de energia limpa. Mas, está se tornando um gigantesco player no setor de energia, diversificando seus ativos e atuando de forma verticalizada tanto no segmento de energia renovável, como de combustíveis fosseis. Cada vez mais, o que fica claro é que a Shell ficará concentrada no poço e deixará para sua subsidiária o posto e o poste.
Artigo publicado originalmente no Broadcast Energia.