Barril derrete com tensões econômicas e políticas globais, mas o futuro é imprevisível

Publicado em: 11/08/2022

Os preços do barril do petróleo passam nas últimas semanas por uma acelerada queda em função de uma conjunção de vários de fatores de origens políticas e econômicas. Do lado da demanda, a volta dos lockdowns na China, bem como a recessão e a política americana impõem uma redução no consumo dos derivados de petróleo. Do lado da oferta, apesar de modesto, o pequeno aumento na produção da Opep e a retomada da produção de alguns países sinalizam uma estabilização na oferta global. Do ponto de vista político, a resposta americana à estratégia da Rússia de “inundar” o mercado asiático de petróleo barato e o crescimento das tensões entre China e EUA também compõem esse pacote de eventos que puxam os preços para baixo.

 

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Desde o dia 19 de julho, o barril do petróleo tem sofrido diversas oscilações, mas com tendência de queda. Segundo a Oil Price, daquela data até o dia 04 de agosto, o preço do barril Brent – principal referência do mercado mundial – caiu de US$ 107,35 para US$ 94,12. Já o barril do WTI (petróleo americano) diminuiu de US$ 100,74 para US$ 88,74 e o Sokol (petróleo russo) se reduziu de US$ 91,99 para US$ 87,05. No mercado russo, a queda foi de aproximadamente 5% e nos outros dois mercados acima de 10%.

 

Um primeiro movimento que explica essa pressão para baixo nos preços é a combinação de retração da demanda global (principalmente na China e nos EUA) somada a política monetária americana mais contracionista visando interromper o surto inflacionário do país.

 

Na China, várias grandes cidades, incluindo Xangai, estão lançando novos testes em massa ou estendendo lockdowns de milhões de moradores para combater novos focos de infecções por Covid-19. Em Shenzen, o governo prometeu “mobilizar todos os recursos” para conter um surto de Covid que se espalha lentamente, ordenando a implementação de testes e a verificações de temperatura, além de lockdowns para edifícios atingidos pelo vírus. Já a cidade portuária de Tianjin, que abriga fábricas ligadas à Boeing e à Volkswagen, o governo apertou as restrições este mês para combater novos surtos.

 

Essas novas medidas de restrição no gigante asiático já afetou a produção industrial do país. Ao contrário do que esperavam os analistas, a atividade industrial da China anotou uma queda em julho. “O índice de compras (PMI, na sigla em inglês) da indústria da China caiu para 49,0 em julho, vindo de um 50,2 em junho”, disse o Escritório Nacional de Estatísticas da China (NBS), abaixo da marca de 50 pontos que separa contração de crescimento em três meses. “A contração contínua nas indústrias de uso intensivo de energia, como gasolina, carvão metalúrgico e metais ferrosos, contribuiu para derrubar o PMI de julho”, seguiu a análise do NBS.

 

Nos EUA, os americanos dirigiram menos no verão de 2022 em relação ao mesmo período de 2020, quando existiam restrições de mobilidade por conta das medidas da Covid-19. A média de quatro semanas de consumo de gasolina nos EUA – o melhor indicador para a demanda do país – esteve mais de 1 milhão de barris por dia abaixo das normas sazonais pré-Covid, de acordo com dados da Energy Information Administration.

 

Embora os preços das bombas tenham caído por 50 dias seguidos, não foi suficiente atrair os motoristas de volta à estrada com a inflação histórica limitando os orçamentos dos consumidores.

 

Essa tendência de queda da demanda deve ser reforçada pela política monetária do FED que, pela quarta vez seguida, promove uma queda na taxa de juros dos EUA a fim de conter pressões inflacionárias. No final de julho, o aumento foi de mais 0,75 ponto percentual na taxa básica.

 

“A inflação continua elevada, refletindo desequilíbrios de oferta e demanda relacionados à pandemia, preços mais altos de alimentos e energia e pressões de preços mais amplas”, disse o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) ao elevar a taxa referencial a um intervalo entre 2,25% e 2,50%, em decisão unânime dos 12 membros com direito a voto. “Depois dessa alta de 0,75 ponto percentual no mês passado e movimentos menores em maio e março, o Fed elevou a taxa básica em um total de 2,25 pontos neste ano”, noticiou a agência alemã DW.

 

Essas sucessivas elevações na taxa de juros afetam fortemente a demanda por petróleo, bem como impõe uma corrida cada vez maior para os papéis do Tesouro americano afetando os mercados globais de ações de commodities.

 

Um segundo movimento que ajuda a entender a redução do barril é a sinalização de uma estabilidade na oferta de petróleo, com um pequeno viés de alta no curto prazo. A Opep anunciou, para setembro, um aumento de 100 mil barris diários na produção de petróleo com anuência russa. Apesar da elevação ser marginal, o “de acordo” russo sinaliza uma possibilidade de o país frear sua política de venda de petróleo para a Ásia.

 

Além disso, alguns produtores iniciaram uma retomada da produção, como a Líbia. O país do norte da África recuperou sua produção de petróleo depois de uma série de interrupções que reduziram o abastecimento para mais da metade, segundo o ministro do petróleo do membro da OPEP. A produção nacional voltou a 1,2 milhões de barris por dia, um nível visto pela última vez no início de abril, disse o ministro Mohamed Oun.

 

Além desses fatores, as tensões políticas entre os dois aliados Rússia/China com os EUA também estão gerando turbulências no mercado internacional que também estão impulsionando uma retração dos preços do petróleo.

 

Primeiro, os EUA buscam neutralizar a estratégia russa de vender petróleo mais barato para a Ásia, principalmente Índia e China. Putin “forçou” uma queda nos preços do petróleo da Rússia, desde março, visando vender a commodity com desconto para diversos mercados. Essa estratégia fez com que as vendas para a Índia, por exemplo, mais do que dobrassem e outros países, como Brasil e Turquia, também anunciaram compras maiores de petróleo e derivados russos. Agora, no mês de julho, a redução dos preços do petróleo e dos derivados dos EUA visam tornar seus produtos mais competitivos, impedindo que a estratégia russa se espalhe por outras regiões.

 

Segundo, a visita da presidente da Câmara dos EUA, Nancy Pelosi, à Taiwan provocou o maior acirramento das tensões com a China nas últimas décadas. Como diz o professor da UFRJ José Luis Fiori, “os americanos têm plena consciência de que o controle de Taiwan deixou de ser apenas uma disputa territorial chinesa, e passou a ser uma condição essencial para que a China tenha acesso soberano ao Pacífico e ao Mar da Índia”. Uma escalada do conflito pode ter repercussões sérias, ainda mais se considerando o cenário de guerra entre Rússia e Ucrânia, afetando a já combalida economia internacional.

 

Embora todos esses eventos nos ajudem a compreender a redução dos preços, é importante lembrar também que essas condições precisam persistir para o barril do petróleo continue derretendo. Algo totalmente imprevisível nesse momento de tamanhas transformações na economia e política global.

 


 

Artigo originalmente no Broadcast Energia.

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