A Petrobras registrou lucro líquido de R$ 26,6 bilhões e distribuiu R$ 8,6 bilhões a seus acionistas no segundo trimestre de 2025 (2T25). No primeiro semestre de 2025 (1S25), a companhia acumulou resultado positivo de R$ 61,8 bilhões, valor 193% superior ao registrado no mesmo semestre do ano anterior (R$ 21,0 bilhões), e ampliou em 31% seus investimentos. Nesse cenário, a companhia já remunerou em R$ 20,3 bilhões seus acionistas no primeiro semestre, o equivalente a 32,9% do lucro líquido apurado no período.

O segundo resultado trimestral positivo consecutivo não só reverte o prejuízo no quarto trimestre de 2024 (R$ -17,0 bilhões), como é resultado da expansão dos investimentos operacionais realizados no ano passado, que viabilizaram a entrada em operação de 25 novos produtores no 1S25.

O resultado positivo no 1S25, mesmo em um contexto adverso de queda de 14,7% no preço médio do brent, quando comparado ao 1S24, resultou, principalmente, do ponto de vista operacional, da expansão de 3,7% da capacidade produtiva de óleo e gás e manutenção de um elevado fator de utilização do parque de refino da estatal.

Da perspectiva comercial, a elevação de 1,9% do volume de vendas de derivados no mercado interno e expansão de 2,5% nos preços básicos dos derivados no mercado doméstico também foram fatores determinantes. O resultado positivo com as variações cambiais e monetárias líquidas de R$ 30,3 bilhões no 1S25, ante resultado negativo de R$ 23,1 bilhões no 1S24, contribui para redução do impacto da elevação de 4,5% das despesas operacionais e manutenção de um resultado financeiro positivo.

No primeiro semestre de 2025, a companhia já acumula lucro líquido 1,7 vezes maior do que o observado em todo o ano de 2024 (R$ 36,7 bilhões), reforçando sua capacidade de geração de valor mesmo em um cenário de incertezas e rebaixamento do preço do petróleo no mercado global.

O grande desafio estratégico da Petrobras segue na distribuição equitativa do valor gerado entre todos seus grupos de interesse – Estado, agentes privados e o interesse público. A reversão de uma trajetória de distribuição de megadividendos e sistemática redução dos investimentos deve avançar e ser o compromisso da maior empresa brasileira.

No período recente a Petrobras foi transformada em uma máquina de remuneração de acionistas. Entre 1T18 e o 2T25, a estatal distribuiu R$ 507,3 bilhões em dividendos, valor superior ao seu valor de mercado atual de R$ 414,0 bilhões e equivalente a 85,6% de todo seu lucro acumulado no período (R$ 592,5 bilhões). Por outro lado, no recorte analisado, os investimentos totalizaram R$ 422,7 bilhões, o equivalente a apenas 71,4% da riqueza gerada e inferior em 16,7% aos dividendos pagos no período.

Elementos que reforçam que o público-alvo da companhia segue sendo os acionistas e seus interesses de curto prazo, inclusive a União, acionista majoritário e que segue pressionado por políticas de austeridade fiscal.

Se entre 2018 e 2022, a companhia, por um lado, ficou marcada por uma redução sistemática dos investimentos e pagamento de megadividendos, a partir de 2023, observamos uma recuperação do volume de investimentos e redução no patamar de distribuição de dividendos, ainda altos para os patamares históricos da companhia.

Nas gestões sob o governo Bolsonaro, os dividendos foram recordes e atingiram um total de R$ 332,8 bilhões, cerca de 97,0% do resultado líquido produzido pela companhia no período. E mesmo com o boom nos preços internacionais do petróleo no biênio 2021 e 2022, os investimentos totalizaram apenas R$ 177,2 bilhões, cerca de 51,7% de todo lucro líquido.

Na gestão de Jean Paul Prates, entre o 1T23 e 1T24, a companhia distribuiu na forma de dividendos o equivalente a 57,3% do seu lucro líquido (R$ 85,0 bilhões) e ainda investiu pouco, o equivalente a 52,2% do resultado produzido pela companhia (R$ 77,4 bilhões). Uma redução significativa do patamar de dividendos pagos, mas com uma retomada lenta dos investimentos.

A atual gestão ampliou os investimentos, em especial no segundo semestre de 2024, mas manteve uma política robusta de pagamento de dividendos, em acordo com expectativa de seus acionistas. Entre 2T24 e 2T25, a Petrobras investiu R$ 118,7 bilhões, equivalente a 158,8% do seu lucro líquido no período e remunerou em R$ 82,7 bilhões seus acionistas, valor equivalente a 110,7% do resultado líquido apurado (R$ 74,17 bilhão), um recorde.

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Em síntese, a trajetória recente de produção e distribuição da riqueza gerada pela Petrobras ilustram a resiliência operacional e capacidade de geração de caixa da estatal, mas também jogam luz sobre a presente disputa entre os interesses de curto prazo de seus acionistas e as necessidades de longo prazo do setor energético nacional.

O plano de negócios da Petrobras deve se orientar pela busca sistemática por segurança energética, através de novos investimentos exploratórios e na expansão da capacidade nacional de refino, além de avançar em direção aos segmentos petroquímico e de gás e energias de baixo carbono, cujos investimentos caíram 39,5% no 1S25, em comparação ao 1S24.

A anunciada volta ao segmento de distribuição de GLP é um esforço essencial para recuperar o caráter integrado da companhia e transformá-la em um instrumento de política pública, contudo, é preciso ir além e avançar na reestatização de ativos estratégicos vendidos em gestões anteriores.


Mahatma Ramos é diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP). Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável da Presidência da República (CDESS). Doutorando em Sociologia no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA-UFRJ) e pesquisador do núcleo de pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA-UFRJ).


Imagem retangular com fundo branco e bordas azuis; o texto chama o público a se inscrever na lista de transmissão do Ineep no WhatsApp.